A mediadora Elisabete Arruda

Com o objetivo de debater a temática etnico-racial, a partir de estudos sobre a branquitude, e refletir sobre as consequências do racismo estrutural dentro da Defensoria Pública é que a ADEPAR, a ADPERGS e a ADEPESC, com o apoio da ANADEP e da ENADEP, promoveram ontem, dia 15 de outubro, a Capacitação Regional Sul.

Sob o tema “Branquitude: Reflexão Defensorial”, a atividade, voltada para defensoras e defensores estaduais que atuam na região sul, reuniu a historiadora Ana Lúcia da Silva, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, José Carlos Gomes dos Anjos e a especialista em educação, relações raciais e ações afirmativas, com o foco na população negra, Joana Célia dos Passos.

“A capacitação foi um momento extremamente importante e necessário, tanto para trazer uma reflexão sobre o papel das defensoras e dos defensores como agentes de transformação social no combate do racismo estrutural, como também para nos fazer olhar para nós e para dentro da nossa instituição de forma mais crítica com relação às questões raciais”, ressaltou a presidenta da ADEPAR, Ana Caroline Teixeira.

A primeira fala da noite foi da palestrante Ana Lúcia. Ela abordou os aspectos do racismo estrutural e do movimento social “Vidas Negras Importam” no Brasil: da violência racial ao genocídio do povo negro. Em sua apresentação, fez um comparativo do enfrentamento das questões raciais entre o Brasil e os Estados Unidos.

A historiadora Ana Lúcia da Silva

“Reunir profissionais que representam a justiça do nosso país para participarem de uma capacitação sobre branquitude e relações étnico-raciais no Brasil foi uma iniciativa importantíssima. Esse tipo de debate abre caminhos para o compromisso de uma justiça na perspectiva de uma educação antirracista, dialogando acerca do racismo estrutural, desigualdades sociais, raciais e de gênero, construídas desde o período de colonização do Brasil ao mundo contemporâneo. Pensar em uma justiça antirracista, pressupõe repensar a democracia, considerando o diálogo interseccional gênero, raça, classe, diversidade sexual e religiosa, para a construção de um mundo melhor, em que pobres, negros, indígenas e mulheres, que historicamente foram silenciados por conta da história eurocêntrica, tenham vez”, destacou Ana Lúcia. 

Já o professor José Carlos fez apontamentos sobre o racismo estrutural no ambiente universitário. Dentre os assuntos citados pelo professor, ele ressaltou que grande parte da literatura, que serve como fonte de pesquisa para os trabalhos acadêmicos, é majoritariamente de pessoas brancas. Segundo José, isso gera um impacto significativo para as pessoas negras. “É como se o aluno tivesse que fazer sua pesquisa tendo seu corpo e história renegados”, argumenta.

O professor José Carlos Gomes dos Anjos

A última exposição, feita pela especialista Joana Célia, trouxe, através de imagens, reflexões sobre relações de poder, branquitude, direitos humanos e privilégios das pessoas brancas na sociedade e no sistema de justiça. Para Joana, “o nosso país é racializado. Porém, os racializados são os indígenas e negros porque os brancos não se sentem racializados. Mas é preciso falar como os brancos se constroem nesta estrutura”.

A especialista em educação, relações raciais e ações afirmativas, com o foco na população negra, Joana Célia dos Passos

Quem conduziu os debates como mediadora foi a defensora pública do Paraná, diretora da ADEPAR e membra da Comissão de Igualdade Étnico-Racial da ANADEP, Elisabete Aparecida Arruda Silva.

“Ontem foi uma noite de ensinamento e reflexão: o racismo precisa ser atacado na sua dimensão estrutural e o debate foi muito enriquecedor nesse aspecto. Nós, defensores e defensoras, quando assumimos o compromisso em trabalhar a favor da população vulnerável, através da missão constitucional de transformação social, na luta de uma sociedade justa e igualitária, não podemos fechar os olhos para a questão racial. Espaços como estes são essenciais para se a pensar a Defensoria Pública enquanto instituição majoritariamente branca, os privilégios decorrentes da cor e de que forma nós como operadores do direito, negros ou brancos, podemos contribuir para visibilizar e desmotivar essa estrutura racista”, ressaltou Elisabete.

O evento contou também com a participação da presidente da ADPERGS, Juliana Lavigne, e do presidente da ADEPESC, Tauser Ximenes Farias.

Opinião das defensoras e dos defensores do Paraná

“O curso foi excepcional com falas muito potentes. A organização e mediação do evento foram muito felizes na concepção e condução do curso. É preciso que a Defensoria Pública se debruce sobre o nosso privilégio branco, estudando como atuar de forma estratégica para desconstruir e desestabilizar o racismo estrutural que perpassa todas as instituições de nossa sociedade, inclusive do sistema de justiça”. Antonio Vitor Barbosa, defensor público do Paraná.

“A capacitação foi pontual e assertiva no tema trabalhado. O debate qualificado acerca da temática trouxe importantes questionamento sobre “o que é ser branco na nossa sociedade e se sabemos o que isso significa?”, sobretudo no sistema de justiça, cuja as instituições são compostas por pessoas majoritariamente brancas, como a Defensoria Pública. Tal problematização é necessária pois a partir do momento em que conseguimos enxergar esta segregação racial e compreender a existencia do racismo institucional, conseguimos refletir refletir sobre a nossa forma de atuar para atingir maior equidade racial e combater de forma incisiva o racismo”. Caroline Teixeira, defensora pública do Paraná.

“Todas as falas foram muito boas e trouxeram muitas informações sobre as várias situações em que o racismo se mostra no Brasil. Chamou-me a atenção o relato de que mesmo com as políticas de cotas nas universidades, dentro do ambiente acadêmico o racismo estrutural é muito presente”. Leonardo Aguiar Silveira, defensor público do Paraná.

“Ouvir a professora Joana discorrer tão brilhantemente sobre a necessidade de discutirmos nosso privilégio de ser brancos demonstra o quanto precisamos evoluir dentro da nossa instituição para que o racismo seja combatido. A realização de cursos de capacitação aos defensores e defensoras, como o oferecido pela ENADEP, somam forças para que possamos discutir e pensar outras formas de combate ao racismo dentro e fora da Defensoria”. Renata Tsukada, defensora pública do Paraná e diretora da ADEPAR.

“A “Branquitude Defensorial” é uma reflexão imprescindível e urgente. A Capacitação Regional Sul promovida pelas Associações de membros da Defensoria do PR, SC e RS trouxe à tona dados e provocações que, certamente, ecoarão na mente dos participantes por muitos e muitos dias. Afinal, “a quais humanos a Defensoria Pública pretende defender?”. Ansiosa para o próximo encontro”. Talita Devos, defensora pública do Paraná.